Chefe de Palworld critica Early Access e diz que modelo virou “novo Kickstarter”

Chefe de Palworld critica Early Access e diz que modelo virou “novo Kickstarter”

O modelo de Acesso Antecipado da Steam teria perdido parte de seu propósito original, na visão de John Buckley, chefe de publicação da Pocketpair, estúdio responsável por Palworld. Em entrevista ao GamesRadar+, o executivo criticou a maneira como alguns desenvolvedores passaram a utilizar o programa, transformando o lançamento de versões inacabadas em uma alternativa para obter financiamento.

A declaração chama atenção justamente porque a própria Pocketpair se beneficiou do modelo. Palworld chegou ao mercado em Acesso Antecipado e se tornou um dos maiores fenômenos de 2024. Para Buckley, porém, a cultura em torno do formato mudou significativamente desde os primeiros anos da iniciativa da Valve.

“Era de ouro” do Acesso Antecipado

Buckley relembrou o período em que a Steam passou do Greenlight para o Early Access como uma época em que desenvolvedores e jogadores tinham expectativas mais claras sobre o funcionamento do programa.

“Houve alguns anos em que o programa realmente funcionava e operava exatamente da forma que acho que a Steam sonhava.”

Segundo o executivo, os jogadores que compravam títulos em Acesso Antecipado naquela época normalmente entendiam que estavam adquirindo uma experiência ainda em desenvolvimento. Eles também estavam dispostos a participar dos testes, fornecer feedback e conversar diretamente com os desenvolvedores sobre os rumos dos projetos.

Na avaliação de Buckley, esse comportamento mudou com a chegada de diferentes culturas de jogos à plataforma, incluindo influências dos mercados mobile e de títulos live service. O resultado seria uma mudança na expectativa do público: atualmente, muitos jogadores comprariam um jogo em Acesso Antecipado e o tratariam praticamente como um lançamento completo.

Palworld sofre com expectativas de conteúdo

Buckley citou Palworld como exemplo desse choque de expectativas. Segundo ele, alguns jogadores passam uma ou duas semanas jogando intensamente e, posteriormente, reclamam quando não encontram uma quantidade constante de novos conteúdos.

“‘Esses desenvolvedores não estão fazendo novo conteúdo. Esse jogo está morto.’ E você fica tipo: ‘Pessoal, a gente se vê em seis meses. Precisamos fazer o jogo’.”

O problema seria ainda mais complicado nos consoles. Buckley afirma que os jogadores de PC já estão mais familiarizados com a ideia de adquirir jogos incompletos e acompanhar seu desenvolvimento, enquanto o conceito de Acesso Antecipado seria menos comum entre o público de consoles.

O executivo, entretanto, evitou responsabilizar os jogadores individualmente. Para ele, quem compra um jogo simplesmente quer aproveitar uma experiência que considera interessante, o que é uma expectativa legítima.

Por isso, a Pocketpair tenta manter uma comunicação constante com sua comunidade, explicando quando uma atualização levará mais tempo ou quando determinado patch terá como prioridade melhorias de qualidade de vida em vez de grandes quantidades de conteúdo.

“Tornou-se quase o novo Kickstarter”

A crítica mais contundente de Buckley está relacionada ao uso do Acesso Antecipado como ferramenta de financiamento.

“A maior forma de abuso hoje é algo como: ‘Vamos lançar agora porque precisamos de dinheiro.’ É uma forma de contornar os meios tradicionais de financiamento. Tornou-se quase o novo Kickstarter de certa forma.”

Na visão do executivo, colocar um projeto inacabado à venda para levantar recursos pode desvirtuar a proposta original do programa. Ele reconhece que existem casos em que o Early Access funciona mal, mas ressalta que a Pocketpair continua sendo uma defensora do modelo.

O próprio Craftopia, outro projeto do estúdio, permanece como exemplo dessa estratégia. Segundo Buckley, o jogo está se aproximando de sua versão 1.0 após anos em Acesso Antecipado, e a experiência foi importante para a trajetória da empresa.

Por isso, a crítica não significa que a Pocketpair pretende abandonar o formato. Buckley indicou que, caso o estúdio trabalhe em outro grande projeto no futuro, o Acesso Antecipado provavelmente continuará entre as opções consideradas.

Comunidade também questiona o modelo

As críticas ao formato não estão restritas à Pocketpair. Discussões na comunidade oficial da Steam no Reddit apontam que alguns jogadores passaram a considerar que um título vendido ao público, especialmente quando comercializado por um preço próximo ao de um lançamento completo, deve estar sujeito às mesmas cobranças e críticas que qualquer outro jogo.

Outro ponto frequentemente questionado é o tempo que determinados projetos permanecem em Acesso Antecipado. Entre os exemplos mencionados pelos usuários estão DayZ, Project Zomboid, 7 Days to Die, Craftopia, Subnautica 2 e Star Citizen.

Alguns jogadores chegaram a sugerir que a Steam estabeleça um limite para a permanência no programa, como 12 a 18 meses, depois do qual o desenvolvedor precisaria lançar a versão 1.0 ou retirar o jogo da plataforma.

Ainda assim, o Acesso Antecipado continua tendo potencial para beneficiar tanto desenvolvedores quanto jogadores quando utilizado de maneira adequada. Projetos como Hades e Baldur’s Gate 3 são citados como exemplos de jogos que conseguiram aproveitar o feedback e o apoio da comunidade durante o desenvolvimento.

A discussão, portanto, não necessariamente aponta para o fim do modelo, mas para a diferença entre utilizá-lo como uma ferramenta legítima de desenvolvimento e recorrer a ele principalmente como forma de financiamento. Para Buckley, o problema está justamente quando um jogo permanece por anos em desenvolvimento, é vendido ao público como um produto comercial e, ao mesmo tempo, utiliza o status de Acesso Antecipado para amenizar as expectativas e críticas dos jogadores.

Quanto a Palworld, Buckley confirmou que a atualização 1.1 está a caminho e terá como foco itens solicitados pela comunidade. O executivo, porém, não promete uma sequência de atualizações gigantescas nos moldes de No Man’s Sky. Uma eventual versão 2.0 também não foi descartada, mas não representa uma promessa da Pocketpair.

Fonte: GamesRadar+