Hideki Kamiya diz que o fim dos jogos físicos não é o maior problema: “A grande questão é a preservação”
O debate sobre o futuro dos jogos físicos ganhou uma perspectiva diferente nas palavras de Hideki Kamiya, criador de Okami, Devil May Cry e Bayonetta. Em entrevista ao VideoGamesChronicle, o desenvolvedor afirmou que o formato físico ou digital é uma questão secundária para ele. Sua principal preocupação está na preservação dos jogos e na garantia de que eles continuem disponíveis para as próximas gerações.
Kamiya participou da entrevista ao lado de Kento Koyama, cofundador e presidente da Clovers, estúdio do qual os dois fazem parte. A conversa aconteceu em meio às discussões sobre o futuro das mídias físicas no PlayStation, justamente quando a plataforma caminha para reduzir a importância dos discos.
Apesar de ser conhecido como colecionador de jogos retrô e possuir mais de 200 máquinas de arcade, Kamiya revelou que atualmente compra seus jogos exclusivamente em formato digital. Por isso, a possibilidade de o mercado abandonar gradualmente os discos não altera seus próprios hábitos de consumo.
“Não compro um único jogo físico hoje em dia, todo jogo que compro é 100% digital”, afirmou Kamiya. Para ele, a decisão da indústria representa uma evolução que já vinha sendo esperada, mas não elimina a necessidade de discutir o que acontecerá com os jogos antigos.
Preservação é a principal preocupação
A questão central para Kamiya é a responsabilidade dos proprietários das propriedades intelectuais em manter seus jogos acessíveis ao longo do tempo. Na visão do desenvolvedor, pouco importa se essa preservação ocorrerá por meio de cópias físicas ou distribuição digital, desde que os títulos permaneçam jogáveis no futuro.
“Essa é a grande questão para mim: se os detentores de IP vão assumir a responsabilidade de garantir que todos esses jogos continuem disponíveis para as gerações futuras, para que possam ser jogados”, explicou.
Kamiya lembrou que diversos jogos clássicos já não podem ser executados facilmente em equipamentos modernos. Para ele, manter esses títulos acessíveis não representa apenas uma questão de entretenimento, mas também uma maneira de preservar a própria cultura dos videogames.
Como exemplo positivo, o desenvolvedor citou a série Arcade Archives, da Hamster Corporation, que disponibiliza jogos clássicos de arcade em plataformas atuais. Mesmo possuindo os equipamentos e jogos originais, Kamiya afirmou que recorre às versões digitais quando quer jogar sem precisar montar novamente todo o hardware necessário.
Jogos físicos também carregam valor histórico
Durante a entrevista, Kamiya explicou que sua preocupação com a preservação vai além da possibilidade de simplesmente executar um jogo. As cópias físicas também podem carregar memórias, histórias e elementos culturais associados aos desenvolvedores e à época em que os títulos foram produzidos.
Ele relembrou uma experiência envolvendo Satoru Iwata, ex-presidente da Nintendo. Durante uma participação na série Iwata Asks, Kamiya levou sua coleção de jogos antigos de NES nos quais Iwata havia trabalhado quando ainda era programador.
Entre os títulos estavam Pinball, Golf e F1 Race, além de outros jogos. Kamiya pediu que Iwata autografasse as cópias e mantém a coleção exposta até hoje.
Para o desenvolvedor, esse tipo de experiência pode desaparecer em um cenário no qual os jogos existam apenas como produtos digitais.
Koyama também lamenta possível desaparecimento das coleções
Kento Koyama compartilhou uma visão semelhante, embora tenha destacado mais diretamente o valor emocional das coleções físicas. O presidente da Clovers afirmou que também migrou boa parte de suas compras para o formato digital, mas ainda procura adquirir versões físicas quando acredita que determinado jogo merece permanecer em sua coleção.
Koyama mantém uma sala dedicada aos videogames em sua casa, com consoles antigos como o Xbox original e o Dreamcast, além de prateleiras cheias de jogos. Segundo ele, simplesmente entrar no ambiente e observar as caixas já provoca uma sensação especial.
“Às vezes, só de entrar naquela sala e passar os olhos pelas etiquetas na lateral das caixas, sinto um frio gostoso no peito”, comentou Koyama.
Para ele, existe algo de triste na possibilidade de esse tipo de coleção desaparecer. A declaração reforça uma distinção importante presente na entrevista: embora o formato digital possa ser suficiente para garantir que um jogo continue jogável, a mídia física pode carregar um valor histórico e afetivo que vai além da função de executar o software.
Para Kamiya, portanto, o futuro dos jogos não precisa necessariamente ser físico. O mais importante é garantir que os títulos não desapareçam quando as plataformas e tecnologias atuais deixarem de existir.
Fonte: VideoGamesChronicle