Jason Schreier diz que compra da Activision Blizzard marcou início da crise atual do Xbox
A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft, anunciada em janeiro de 2022 e concluída em outubro de 2023, foi inicialmente vista como uma das maiores jogadas da história da indústria dos videogames. No entanto, para o jornalista Jason Schreier, da Bloomberg, o negócio acabou se tornando também um dos principais fatores por trás da crise que o Xbox enfrenta atualmente, marcada por demissões, cancelamentos de projetos e uma profunda reestruturação interna.
Em participação recente em um podcast, Schreier afirmou que a compra de US$ 68,7 bilhões representou um verdadeiro ponto de virada para a divisão de games da Microsoft. Segundo ele, a lógica da aquisição era sólida naquele momento: franquias como Call of Duty, Diablo, Overwatch, World of Warcraft e Candy Crush poderiam impulsionar o crescimento do Game Pass e fortalecer a presença da empresa em diferentes mercados, incluindo o setor mobile por meio da King.
"O novo Call of Duty chegando ao Game Pass no dia do lançamento poderia atrair milhões de assinantes", explicou Schreier. A expectativa da Microsoft era justamente essa: usar algumas das propriedades intelectuais mais populares do mundo para acelerar a expansão do serviço de assinatura e consolidar o Xbox como um ecossistema multiplataforma.
No entanto, o jornalista argumenta que o impacto financeiro da operação foi muito maior do que os quase US$ 69 bilhões pagos pela empresa. Segundo ele, muitos observadores se concentram apenas no valor da aquisição e ignoram os custos permanentes que acompanham uma integração dessa magnitude.
"US$ 69 bilhões é uma quantia inacreditável de dinheiro que o Xbox estava pagando pela Activision Blizzard. Mas isso é apenas o começo. O valor real que você está pagando é muito maior do que se pode imaginar, porque, além do custo da própria aquisição — sem contar os gastos de fechamento do negócio e os honorários jurídicos relacionados às batalhas regulatórias que vêm junto com ela — você também está incorporando milhares de novos funcionários, cerca de 10 mil pessoas, que precisam ser pagas e gerenciadas."
Schreier acrescenta que a expansão da estrutura aumentou drasticamente os custos operacionais do Xbox. Além dos salários, a Microsoft passou a arcar com benefícios, infraestrutura, escritórios e toda a administração necessária para coordenar uma organização muito maior. "De repente, toda a sua estrutura se torna muito mais cara do que era um ano antes, e esses custos não vão desaparecer", afirmou.
O cenário ficou ainda mais complicado porque o Game Pass não cresceu no ritmo esperado. Embora o serviço continue sendo uma das principais apostas da Microsoft, o número de assinantes começou a desacelerar justamente quando a compra da Activision estava sendo finalizada. Para Schreier, esse foi um dos fatores que aumentaram a pressão sobre a divisão Xbox para entregar resultados financeiros mais consistentes.
A mudança de postura da Microsoft ficou evidente nos anos seguintes à aquisição. O Xbox iniciou múltiplas rodadas de demissões, fechou estúdios e cancelou projetos importantes. Jogos como Perfect Dark, Everwild e Blackbird acabaram sendo interrompidos, enquanto equipes tradicionais passaram a conviver com incertezas sobre seu futuro. Paralelamente, a empresa flexibilizou sua política de exclusividade, levando franquias antes associadas ao Xbox para plataformas concorrentes, como PlayStation e Nintendo.
Na visão de Schreier, a compra da Activision Blizzard não foi um erro necessariamente, mas alterou completamente a escala e as expectativas em torno do Xbox. O que antes era uma divisão que podia operar com maior liberdade passou a carregar uma pressão muito maior por crescimento e rentabilidade. E, para muitos observadores da indústria, as consequências dessa mudança ainda estão apenas começando a aparecer.
Fonte: Bloomberg