Estúdios acusam o Steam de falhar na moderação e permitir discurso de ódio em reviews
Diversos desenvolvedores independentes estão acusando o Steam de negligenciar a moderação de comentários abusivos, discriminatórios e de ódio em reviews e fóruns da plataforma. As denúncias ganharam força após a publicação de um relatório do jornal britânico The Guardian, que aponta falhas recorrentes nos sistemas de denúncia e na atuação da Valve, responsável pela plataforma.
Segundo a reportagem, estúdios relatam dificuldades constantes para remover avaliações que violam diretamente as diretrizes de conduta do Steam, que proíbem assédio, insultos, discurso de ódio e acusações públicas. Em alguns casos, as respostas automáticas da Valve às denúncias seriam praticamente idênticas às enviadas há mais de cinco anos, indicando ausência de evolução nos processos internos de moderação. Para os criadores, isso demonstra um padrão de inação que os deixa expostos a campanhas coordenadas de ataques.
Um dos casos mais graves envolve a desenvolvedora Nathalie Lawhead, que relatou a presença de reviews com conteúdo antissemita e ataques pessoais ligados a denúncias públicas de abuso sexual feitas por ela. Inicialmente, a moderação do Steam liberou os comentários, mesmo com violações claras às regras da plataforma. Lawhead só conseguiu a remoção após acionar contatos diretos dentro da Valve e recorrer à própria visibilidade pública.
“Isso não deveria ser normal. Se eu continuar existindo no Steam, terei que passar por essa provação exaustiva toda vez que quiser denunciar abusos”, afirmou a desenvolvedora.
De acordo com o relato, a Valve respondeu com a justificativa de que “não está em posição de verificar a precisão das declarações feitas nas reviews dos usuários”, acrescentando que evitar a remoção de análises seria uma forma de não incorrer em “censura”. A postura também se repetiu em outros casos. Um desenvolvedor identificado como Ethan afirmou que seu jogo Coven passou a receber reviews negativas motivadas por opiniões políticas pessoais, e não pela qualidade do produto. Parte dos ataques teria sido impulsionada por um curador do Steam chamado CharlieTweetsDetected, que recomendava boicotes com base em posicionamentos ideológicos dos criadores.
Situação semelhante foi relatada por Émi Lefèvre, criadora de Caravan SandWitch, que afirmou que seu jogo foi alvo de avaliações negativas exclusivamente por conter temáticas LGBTQ+. Para ela, a ausência de moderação transforma as ferramentas de avaliação do Steam em “um campo de batalha de uma guerra cultural”, desviando completamente o foco da análise do jogo em si.
O problema se agrava pelo peso do Steam no mercado. Considerado por muitos desenvolvedores como um monopólio no PC, a plataforma se torna praticamente obrigatória para quem quer visibilidade e viabilidade comercial. Isso cria um dilema: permanecer no Steam e lidar com ondas de abuso sem proteção efetiva, ou migrar para plataformas menores, onde, segundo os próprios criadores, os jogos “não são levados a sério” pelo público e pela imprensa.
Até o momento, a Valve não anunciou mudanças concretas em seus sistemas de moderação nem revisões em suas políticas de resposta a denúncias. As acusações reforçam a pressão crescente sobre a empresa para que trate reviews e fóruns não apenas como espaços de opinião, mas como ambientes que também exigem responsabilidade, proteção aos criadores e combate ativo a discursos de ódio e assédio.
Fonte: The Guardian